quarta-feira, 22 de julho de 2015

Os Fantoches Da Assembleia Da República

© IPPAR  FREE CONTENTE LICENCE
Aqui há uns dias a TVI pôs um repórter na rua com fotografias dos deputados da Assembleia da República. Perguntava às pessoas se conheciam aquelas caras. A maior parte disse que não.

As pessoas que apareciam nas imagens eram eleitas para representarem, na casa da democracia, as pessoas que afirmavam não as conhecer.

O sistema político português assenta numa falta de interesse dos eleitores pelo sistema de eleição e, digamos, por uma falta de interesse dos eleitos em serem reconhecidos. Desta forma, os deputados não são associados a decisões que prejudicam os seus eleitores e assim vão passando pelos intervalos da chuva.

Se podemos dizer que o desconhecimento parte de algum alheamento por parte do povo relativamente às instituições, não é menos verdade que os partidos políticos jogam com isso a seu favor. 


É do interesse das estruturas partidárias que os deputados sejam apenas associados a um partido político e não a uma região da qual são provenientes. Só assim podemos explicar a ideia absurda e pouco democrática, apresentada pelo PSD de expulsar os deputados que se mostrem dissidentes em decisões tomadas na AR.

Outra forma de tentar contornar a genuína função das eleições legislativas - eleger deputados - é transmitir de forma insistente a cara dos líderes partidários que serão nomeados primeiros ministros no caso de o seu partido ganhar as eleições.

É ainda de lamentar que para que ganhem lugares elegíveis e tenham o seu quinhão, alguns indivíduos sejam enviados para encabeçarem listas em distritos com os quais não têm qualquer relação. É o caso de João Galamba que vai encabeçar a lista de Coimbra do PS sem ter relações com a cidade (talvez tenha uns avós na Figueira).

Em último lugar, referir a agitação que vai dentro do Partido Socialista com a distribuição de cadeiras. Ou, como o povo gosta de dizer, poleiros. Álvaro Beleza, entrevistado à entrada da sede do PS em Lisboa, e visivelmente preocupado com o seu lugar na AR disse que o partido devia escolher os seus deputados tendo em conta aqueles "que dão muito ao partido".

Era importante que os partidos políticos colocassem cada vez mais os interesses dos eleitores à frente dos seus interesses pessoais. A continuar assim fica a pergunta: para que servem 230 fantoches, se 23 faziam o mesmo serviço?

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Os Festivais, A Internacionalização E As Marcas

em Oeiras, Portugal
Nos Alive 2015 © Diogo Pereira 2015
Os festivais de música estão a posicionar-se cada vez mais como referências de Portugal no estrangeiro. De volta a conversa do clima propício e a hospitalidade.

No Alive, por exemplo, não é preciso andar muito para tropeçar em espanhóis, franceses, italianos, alemães e muitos outros estrangeiros. Segundo Álvaro Covões, responsável por este evento que acontece anualmente em Oeiras, a receita é trazer os turistas até Lisboa, dar-lhes a manhã e a hora de almoço para visitarem a cidade e provarem a gastronomia, à tarde assistem aos concertos das suas bandas favoritas e ainda ficam com a madrugada para experienciarem a movida alfacinha.

A fórmula parece resultar. Só este ano foram 15 mil os estrangeiros que estiveram em Lisboa para ver Muse [na foto], Mumford & Sons e muitos outros artistas de relevo mundial. E mais uma vez, segundo a organização, ficaram por Lisboa mais dias do que os três do festival.

Com tanto público e tantos interessados em entrar no recinto, este é o tipo de acontecimentos que atrai as marcas. Os brindes são às centenas e a construção de stands parece épica. O objetivo é ver quem tem o castelo mais vistoso.

Mas ainda falta muito público de fora do país para que estes festivais tenham uma verdadeira posição global. Começaremos a estar perante produtos de atração global quando, como nos eventos desportivos, as marcas internacionais tiverem interesse em patrocinar estes concertos.

No Alive não há marcas globais. Ou melhor, apenas a Heineken, marca de cerveja holandesa é de conhecimento global. De resto, o patrocinador principal é português e todos os outros o são também.

Quando os estrangeiros forem mais, talvez venhamos a conhecer novos patrocinadores. Ou melhor, sponsors...

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O Vício Dos Números

Observador noticia empregabilidade dos cursos das instituições de ensino superior portuguesas em quatro artigos
Se pudéssemos generalizar e dizer que todos os jornalistas eram viciados em alguma coisa, essa coisa seria os números. A ansiedade de quantificar é tanta que, muitas vezes nem olhamos para o verdadeiro valor dos dados apresentados. Falo na primeira pessoa, porque compreendo a factualidade dos números e, de facto não há dados mais objetivos do que eles. Mas, nem só de objetividade vive o jornalista. Um olhar crítico não faz mal a ninguém.

A economia tem avassalado de tal forma a atualidade que, quando falamos em dívida, défice, PIB, taxa de desemprego ou inflação, esquecemo-nos que estes dados dizem respeito a pessoas e que um ajuste no excel pode por as contas a bater certo, mas pode ter implicações sociais terríveis.


As peças são diferentes, mas baseiam-se todas num "documento do Ministério da Educação enviado às instituições de ensino superior". E baseiam-se mal porque estes dados podem ser falaciosos.

Em primeiro lugar, nem todos os graduados estão inscritos nos centros de emprego e, assim, não contam para as estatísticas. Em segundo lugar, a empregabilidade não é analisada à luz da área de formação dos licenciados. Ou seja, um curso que empregue muitos jovens, mesmo que num sector completamente diferente da sua área entra para as estatísticas como um curso com grande empregabilidade.

O Observador é cauteloso ao admitir que "estes dados sobre o desemprego têm de ser lidos sempre com cautela, pois nem todos os desempregados estão inscritos em centros de emprego e, por outro lado, muitos podem estar a trabalhar em ofícios que nada têm que ver com a licenciatura (com ou sem mestrado integrado) que tiraram". Mesmo assim não deixa de dar destaque ao tema com títulos enganadores e com referências inequívocas na Newsletter assinada por David Dinis, o diretor.

Neste caso deve fazer-se uma reflexão sobre qual o objetivo das notícias dos órgãos de comunicação social. Se esclarecer era a vontade dos jornalistas que escreveram estes textos, ela não foi conseguida. E estando nós numa época do ano em que milhares de jovens se preparam para escolher o seu futuro no ensino superior, estas informações podem mesmo induzi-los em erro.

terça-feira, 14 de julho de 2015

O Cancro De Laura

Correio da Manhã, 8/7/15
Algumas vezes jornalistas e atores da sociedade fazem pactos. Compromissos de honra, baseados na palavra, que têm um objetivo.

O último pacto de que há conhecimento foi estabelecido com o Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho e tinha como objetivo ocultar a doença de Laura Ferreira, sua esposa, que luta contra o cancro.

Este compromisso com os jornalistas nunca havia sido quebrado até Passos autorizar uma sua assessora a biografa-lo e, com essa autorização, autorizou-a também a escrever sobre a doença da mulher. 

Recentemente, Passos e Laura apareceram juntos numa visita oficial a Cabo Verde. A imprensa - principalmente a de qualidade duvidosa - aproveitou para fotografar Laura sem cabelo e escrevinhar sobre a doença desta mulher.

Muitos foram os que se insurgiram contra os jornais e revistas que escreveram sobre o assunto, mas Passos quis que isto acontecesse. É um político experiente e sabe perfeitamente que "é das carecas que os eleitores gostam mais".

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Bem Vindos Ao Século XXI

Cristina Esteves explicou ontem as diferenças nos blocos informativos em 16:9 © RTP
A RTP começou hoje a transmitir integralmente em 16:9. Esta tecnologia que transforma a imagem num retângulo em vez do atual quadrado - simplificando a explicação técnica -, é usada por televisões de todo o mundo em produções televisivas de grande qualidade. A alta definição, por exemplo, é conseguida com esta resolução de imagem.

A realidade é que a televisão pública já transmitia os seus formatos de entretenimento - como os programas da manhã e da tarde, os concursos, as ficções e os eventos desportivos - em 16:9. Mas só agora a informação é feita com este padrão. Desconfio que este atraso se deve à idade avançada dos meios técnicos que a RTP usa na informação, que dificultam a passagem para esta nova fase. Há - ou havia - delegações regionais da televisão pública que ainda usavam câmaras de cassete!

Esta é uma boa notícia, significa que a RTP se está a modernizar, mas devíamos ter ouvido esta notícia há pelo menos uns 5 anos atrás, para não dizer 10... ou 15!

Continuar a emitir em 4:3 quando a televisão começou a trilhar novos caminhos há muito, é o mesmo que mostrar programas a preto e branco quando as cores já são possíveis.

Mas pior do que a RTP, estão SIC e TVI que emitem, em 2015 - sim, em 2015! - integralmente em 4:3 e com qualidade de imagem absolutamente deplorável. Basta compararmos a emissão dos canais privados com o canal público no daytime, por exemplo.

Esta questão leva-me ainda mais a acreditar que as televisões não querem fazer investimentos em tecnologia e que muito menos estão preocupadas com a sua reputação ou a sua viabilidade a longo prazo. Interessam-se apenas em lucrar hoje.

A fraca aposta na inovação, os programas da treta que, desde a primeira à última hora apenas interessam às gerações mais velhas e os enjoativos concursos assentes em chamadas de valor acrescentado vão conseguir uma coisa: o desaparecimento destes canais como os conhecemos. Prova disso é o aumento significativo das audiências dos canais por cabo.

domingo, 12 de julho de 2015

O Mundo A Duas Cores

© André Carrilho
Este cartoon, do português André Carrilho, foi o vencedor do World Press Cartoon 2015. Gosto de duvidar de quem diz que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas esta é mesmo muito forte.

A crítica baseada no Ébola que sacrificou milhares de vítimas em todo o mundo, é aplicada a uma transversalidade de acontecimentos jornalísticos que, consoante as coordenadas têm menor ou maior relevância.

Esta imagem devia ser impressa em grandes dimensões, emoldurada e colocada em todas as redações do mundo ocidental.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

É Preciso Ter Coragem

Parlamento Grego, Atenas ©Vanessa Silva, 2013

É preciso ter coragem para fazer aquilo que os gregos fizeram ontem. Contra todos os poderosos que faziam valer a sua posição como quem tem a faca e o queijo na mão, a Grécia quis ser dona do seu destino e, ao contrário do que diz o vetusto José Manuel Fernandes, dar uma lição de democracia à Europa.

Esta Europa que nos últimos dias se apresentou como a última Coca Cola do deserto. Ou como a última bolacha do pacote. Manienta. Arrogante. Achando-se a tábua que salva Rose da morte e mata Jack por não querer subir. Como se a protagonista de Titanic fosse Portugal e Di Caprio a Grécia.

Falta povo a esta Europa moribunda. Faltam eleições. Na realidade, falta democracia. A democracia que deu um murro na mesa na Grécia e negou mais uma dose de quimioterapia para tratar um cancro que, provavelmente, se cura com células dendríticas.

A própria demissão de Varoufakis mostra que este Syriza não está agarrado ao poder, que quer encontrar uma cura para a Grécia que não a mate mais rápido do que o seu mal. Este ministro das finanças reconhece assim que se excedeu e que tem que dar lugar a uma nova forma de negociar. Mais uma lição destes miúdos.

Uma lição que Portugal devia anotar no seu caderno. Afinal, há ministros que fazem política e tomam decisões políticas. Será que Miguel Relvas, Paula Teixeira da Cruz ou Nuno Crato sabem que as consequências dos atos políticos são a demissão?

E será que é desta que o pateta do primeiro ministro português vai pousar os pompons e assumir que devia ter ido mais além nas negociações? Claro que não. Passos Coelho é jovem e ainda tem muitos anos pela frente para trabalhar. E, afinal de contas, ele não sabe fazer mais nada.

P.s.: Este texto de Pedro Santos Guerreiro no Expresso é tudo aquilo que eu queria dizer.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Europa É A Solução Da Grécia

Gosto de dizer que sou um europeísta convicto. Talvez por acreditar que a União Europeia consolidada resolveria muitos dos nossos problemas, mais do que por achar que o caminho que se faz hoje seja o mais sério.

A situação que se vive na Grécia é dramática. Estive lá em 2013 - na altura cumpriam-se 2 anos desde o primeiro resgate - e fiquei impressionado com as colónias de sem-abrigos nas ruas, as lojas fechadas e o ambiente pesado. Atenas era uma cidade sem brilho. Tive a oportunidade de, pouco tempo depois visitar uma das cidades mais pujantes da Alemanha e perceber as diferenças. Mas nem era necessário porque Dublin e Lisboa, onde também estive, são o rosto de países diferentes. De facto, Portugal não é a Grécia.

Como disse no começo, acredito que a Europa pode ser o remédio deste mal chamado dívida soberana que afeta a maior parte dos países do velho continente. Se fomos (nós, europeus) capazes de criar um país como a Alemanha que se conseguiu recompor dos danos da guerra muito graças à convergencia dos países que anos antes tinham sido completamente arrasados pela ira do nazismo, porque não podemos reerguer este projeto pensado na base da paz e da solidariedade entre povos?

A criação de um projeto federalista não é fácil. Sabemos que não temos a mesma língua (são 24 diferentes!) e as culturas e costumes são diferentes mas, acreditando na solidariedade entre povos, acredito que as diferenças podem ser superadas. 

Olhemos para os EUA que tiveram no seu país o gatilho para a crise internacional, mas mesmo assim não foram, nem de longe nem de perto, os mais afetados. E é este país, que deu o tiro de partida para os "Estados Unidos da Europa", que agora parece mais preocupado em resolver este bico de obra que pode provocar uma nova crise global sem precedentes.

Aquilo que nos deve preocupar não é simplesmente em que zona os estilhaços da bomba que se quer lançar sobre a Grécia nos vão atingir. Devemos preocupar-nos também, e acima de tudo neste momento, com os efeitos da bomba lançada. Não podemos permitir que a Grécia continue a afundar-se e que as colónias de sem-abrigos continuem a crescer, sem tentar resolver o problema e dormindo bem com isso.

Reportagem "Portugal não é a Grécia". © Diogo Pereira, 2013

sexta-feira, 26 de junho de 2015

"America Is NOT The Greatest Country Anymore!"

©Tatiana Sapateiro, FREE CONTENTE LICENCE (Wikipédia)
Os Estados Unidos da América não são o melhor país do mundo. Retive esta frase dita pela personagem de Jeff Daniels no primeiro episódio da série americana The Newsroom. Não posso estar mais de acordo.

O país que hoje reconhece aos casais do mesmo sexo a possibilidade de se transformarem em parentes de primeiro grau através do matrimónio é o mesmo que mantém uma prisão onde se praticam atos de tortura aberta contra todas as vontades. Supostamente até a vontade do tacanho presidente.

Este belo referencial de nação é também conhecido por espiar países aliados, aceitar a pena de morte e invadir países orientais para escoar o seu stock de armas.

A decisão que agora aparece peca por tardia. Tão tardia que os americanos não deviam festejar este dia para que ninguém percebesse que a decisão havia sido tomada apenas em 2015. Muito tempo depois daqueles países que só usam um avião (e velhinho) nas visitas de estado a terem implementado.

Este país, de dimensão continental que nos leva à parolice de acreditarmos que são os melhores no cinema porque têm os Óscares, os melhores no jornalismo porque têm os Pulitzer e os melhores na política porque têm um cão de água português já não nos devia surpreender. Afinal só foram os primeiros a colocar uma bandeira na lua. E, mesmo essa, tinha linhas portuguesas.

P.S.: Estava aqui a pensar em que lugar deste texto deveria pôr a bonita referência à abolição da escravatura nos EUA. Sim, os EUA aboliram a escravatura em 1863. Depois do Haiti, UK, Portugal, Chile, França, Brasil, Venezuela, Peru...

domingo, 21 de junho de 2015

Ser Livre É Ser Europeu

Fotograma da reportagem "Fuga para a Frente" da jornalista da RTP Lavínia Leal
Acabo de ver na RTP Informação a reportagem "Fuga para a vida" da jornalista Lavínia Leal e confirmo uma opinião que já tinha há muito tempo: ser livre, é ser europeu.

Num período em que assinalamos (na minha opinião, comemoramos) a integração europeia e a adesão ao espaço schengen, muitas dúvidas se têm colocado quanto ao sucesso da inclusão do nosso país neste espaço comum.

Cada uma das pessoas que atravessa o Mediterrâneo, mesmo sabendo que é mais provável morrer do que chegar ao destino, é o rosto daquilo que a Europa sempre desejou e que conseguiu claramente: a paz.

Depois da queda do muro de Berlim, que oficialmente limpou da nossa geografia os fantasmas da Segunda Guerra Mundial, não mais os países europeus se defrontaram. Conseguiram até erguer um projeto comum de cooperação ao qual, sejamos realistas, falta solidariedade. Mas não nos esqueçamos que os mesmos países que hoje se sentam com regularidade à mesma mesa, são os mesmos que há 70 anos se agrediam violentamente.

Estas pessoas, como Ahmed ou Saeed, não têm algo que nós, deste lado, nos habituámos a desprezar: a paz. Por isso, mesmo estando a Europa a atravessar uma crise sem precedentes, é um destino de sonho para quem nada tem. Ou melhor, tem a morte no horizonte.

Nós, que tivemos a sorte de nascer do lado certo do Mediterrâneo, temos menos uma preocupação: a segurança. Vamos ocupar esse espaço livre com a integração destas pessoas que querem ser europeus como nós. Ao mesmo tempo, vamos pensar em conjunto na possibilidade de criar condições nos países de origem para que a morte no mar não seja a solução menos má destes seres humanos como nós.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Homem Que Ergueu A Primeira Mesquita Gay-Friendly

© Fotografia de Charles Platiau (Reuters), publicada na Visão (1162\11-6)
Ludovic-Mohamed Zahed nasceu em 1978, em Argel e foi-nos apresentado na última edição da Visão (1162\11 junho) porque é uma pessoa especial. A começar pela quase paradoxal formação que tem em Ciências Humanas e Religiosas e Estudos de Género.

Zahed mudou-se para Paris com a família quando tinha apenas um ano. Cedo percebeu que os caminhos que queria traçar eram sinuosos e não se cruzam. Estavam, aliás, muito distantes. O pai dizia-lhe que a masculinidade que Deus lhe havia dado "não era boa". Já o avô ajudou-o a perceber que o Islão e os seus toques efeminados não eram compatíveis. A ajuda que recebeu foi pela via da agressão física. Um dos seus irmãos também contribuiu para que ele percebe-se que estava em rota de colisão. Queimou-o com cigarros.

Todas as turbulências porque que passou não foram suficientes para o afastarem do Islão. A Irmandade Salafista era muito importante na Argélia nos anos 90 e Zahed junta-se a eles. Aprende Árabe e decora o Corão. "Infelizmente, toda a bela filosofia de vida que o Islão contém foi contaminada por uma ideologia que é o contrário da espiritualidade religiosa", lamenta na entrevista à Visão.

Desiludido com a religião Islâmica, tentou converter-se ao cristianismo ou ao budismo, mas encontrou homofobia em toda a parte, "até mesmo entre os que não acreditam em Deus", acaba no mundo das drogas e contrai Sida.

Todas estas pedras no caminho serviram para construir aquilo que é hoje. Deu volta à vida e construiu a primeira mesquita gay-friendly da Europa. A partir daqui começa a história original. Depois de liderar orações num espaço escondido, com medo de ameaças, conseguiu erguer um espaço amplo no centro de Paris onde até mulheres lideram orações.

A motivação deste homem surgiu de histórias que de original nada têm: a recusa, por parte da comunidade islâmica, em sepultar fieis transexuais.

A comunidade que Ludovic-Mohamed Zahed ergueu segue as tradições islâmicas. As preces de sexta-feira, contratos de casamento e rituais fúnebres. Afinal, "não há nada no Corão nem nos Hadith [as palavras e ações de Maomé] que justifique a homofobia".

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Fecha Ou Não Fecha?

©TAP
A TAP foi hoje finalmente vendida. Nem podia ser de outra forma. Depois de uma tentativa falhada e de tanta pressão, o governo não podia voltar a falhar. Tinha mesmo que vender: porque é assim que a política funciona. Custe o que custar.

Não discutirei a questão económica que é o que mais interessa. O certo é que não sei o que é melhor para a TAP, se a privatização ou a manutenção na esfera pública. Aquilo que sei é que, embora tenha tentado formar uma opinião através dos meios de comunicação social, isso me foi negado.

Vi todos os "Prós e Contras" sobre o tema, vi a entrevista de Sérgio Figueiredo a José Gomes Ferreira, li a entrevista de Fernando Pinto no Expresso, vi o último "As Palavras e os Atos" da RTP, vi a "Grande Reportagem" em dois episódios da SIC e outros tantos artigos, opiniões, programas, debates e entrevistas promovidos pela comunicação social. E continuei sem saber se a privatização é melhor do que a manutenção pública da empresa e vice versa.

Hoje, lembrei-me de escrever este texto depois de ouvir Passos Coelho dizer que "o que aconteceria se não tivéssemos condições para concluir este processo com sucesso era a liquidação da empresa a médio prazo".

Não foi o mesmo que ouvi a Sérgio Figueiredo na passada quinta feira. "Não, não, João, não fecha. Mas é reestruturada". Dizia o secretário de estado a João Galamba num debate na RTP1 quando o deputado do PS se queixava do discurso terrífico do governo: "Todos os argumentos que apresenta, são os argumentos da falta de alternativa e do encerramento da empresa", lamentava o deputado do PS.

Que este governo não dialoga internamente, creio que já todos percebemos. Mas agora percebemos também que a estratégia da venda da TAP pode estar assente em pressupostos errados. Afinal, o estado pode, ou não, reestruturar a empresa. Precisa de pedir autorização à Comissão Europeia? A empresa pode fechar se não fôr vendida?

Eis um conjunto de questões que deviam ter sido respondidas e não foram. Aqui o jornalismo devia ter tido uma palavra a dizer. Devia dominar a opinião pública. Devia ser o verdadeiro quarto poder. 

Estou farto de guerrilhas políticas amplificadas pelos palcos da televisão ou pelo braço estendido com um microfone para "reagir às declarações de fulano ou sicrano". Temos que perceber que os políticos não são pessoas de bem. Só querem ganhar o combate mais próximo, quer seja uma discussão na AR ou a venda de uma empresa basilar da economia portuguesa.

RELACIONADO:
Quem manda mais?
O governo de Passos Coelho foi eleito com a privatização da TAP no programa de governo do seu partido. Este assunto é, aliás, muito caro aos partidos com maior representação parlamentar porque por diversos momentos já quiseram a privatização da companhia. [LER TUDO]

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Semana Fácil Para Eduardo Cintra Torres

Quando penso em cronistas e comentadores de jornais uma das coisas que mais me inquieta é a quantidade de conteúdos para serem comentados. Ou melhor, a quantidade de opiniões que um cronista tem que ter para aplicar aos inúmeros conteúdos noticiosos que são publicados diariamente. Eu tento manter um blogue algo expedito, mas há períodos em que não consigo expressar opiniões sobre as coisas que vão acontecendo.

Eduardo Cintra Torres, professor universitário, investigador, autor de vários livros sobre jornais, jornalismo e televisão tem tudo para ser um homem sério. Mas não é.

Talvez quisesse ser sério, mas o palco que lhe é oferecido não tem por hábito coadunar-se com o rigor que deve ser exigido a um jornal. E como em Roma, sê Romano, Eduardo Cintra Torres adapta-se ao escremento que é o jornal para o qual escreve.

Ora, a atividade deste homem é criticar os conteúdos de outras televisões e de outros jornais. E digo outros, obviamente em contraciclo com o "jornal" para o qual ele escreve: o Correio da Manhã.

Esta semana decidi dar-lhe duas sugestões em linha com o tipo de crítica que costuma fazer por, como disse no início, achar difícil encontrar temas para criticar todas as semanas:
Clínica "Génese do Tempo" em destaque numa publireportagem da CMTV
1) Uma televisão portuguesa incluiu numa reportagem, sobre a operação às orelhas de um jovem que ficou famoso no "Ídolos", uma publicidade descarada a uma clínica médica do Porto.

Fotomontagem feita por Carlos Neves faz destaque na 1ª página do CM
2) Um jornal português noticiou, com chamada de primeira página, a existência de um tornado no Montijo com base numa fotografia partilhada nas redes sociais que, veio a saber-se, era uma fotomontagem.

Não sei se será importante dizer que a referida TV é a CMTV e o referido jornal é o Correio da Manhã. Mas creio que não, afinal a isenção está acima de tudo.

domingo, 7 de junho de 2015

O Orelhudo Já Não É Orelhudo

Daniel Alexandre falou com a CMTV
Daniel Alexandre canta mal, mas no programa "Ídolos", da SIC, o que chamou a atenção da produção não foram os decibéis desafinados. Foi o tamanho das orelhas.

Depois de muita celeuma em torno deste caso, o rapaz decidiu fazer uma empreitada nas suas avantajadas orelhas. Chama-se otoplastia e, segundo o Correio da Manhã (CM), esta cirurgia é cada vez mais frequente em Portugal.

Aquilo que este rapaz fez foi dizer aos telespectadores da SIC que, a partir de agora, já não podem gozar mais com ele, mas podem continuar a referir-se de forma jocosa a pessoas que tenham os apêndices da cabeça parecidos aos do Dumbo.

Esta é uma novela muito bonita que tem sido transmitida nos noticiários do CM e que, à boa maneira portuguesa, tem sido seguida com muita ternura porque, como boas pessoas que todos somos, sentir pena de alguém é um ato nobre.
Quanto ao Daniel: moço, inscreve-te no conservatório; aprende a cantar; volta a participar no "Ídolos" e não voltarás a ser humilhado.

P.S.: Embora a CMTV apenas tenha aflorado, deixo claro, pelo relevante interesse jornalístico (apenas jornalístico!), que a operação do Daniel foi realizada na clínica "Génese do Tempo".

sábado, 6 de junho de 2015

Um Novo Conjunto De Folhas Sem Agrafos

Desde o dia 4 de junho que "Coimbra tem ainda mais encanto". É este o slogan do novo conjunto de folhas sem agrafos que passará a estar disponível em diversos estabelecimentos comerciais da cidade. Se o slogan é revelador de uma falta de originalidade medonha, o que dizer do título: "Notícias do Mondego". E nem vou falar do design que colhe o mau gosto do roxo dado ao fundo do cabeçalho com letras de diferentes fontes, tamanhos e cores. Não fosse eu saber do que se tratava e acharia que estava na presença de um folhetim de uma qualquer seita ávida de fiéis.

Venho aqui falar desta nova publicação porque estava ansioso por encontra-la num café para poder contar como foi o meu encontro imediato com o "Notícias do Mondego". Sim, já estava à espera deste dia, mas confesso que achei que não iria chegar.
Primeira página da primeira edição do "jornal" Notícias do Mondego
Há uns tempos, uma amiga enviou-me um anúncio publicado no OLX que dava conta da necessidade de jornalistas para um novo projeto que ia nascer. Interessei-me por saber do que se tratava e se podia ser uma oportunidade de trabalho viável para mim. Enviei o meu currículo.

No dia seguinte fui contactado por telefone e foi-me perguntado se estaria disponível para uma entrevista presencial. Disse que sim.

Dois dias depois fui até ao centro comercial Avenida, na Sá da Bandeira, encontrar-me com os responsáveis por este novo projeto "jornalístico" da cidade.

Entrei numa sala desarrumada que estava a ser preparada para se transformar em redação. Foi-me apresentado um protótipo daquilo que seria esta nova publicação tal e qual como é hoje, incluindo as secções.

Logo de seguida foram-me apresentadas as condições: seria jornalista em regime de freelancer e não me podiam adiantar o valor pago por peça. Dependeria das receitas obtidas em publicidade. Mas era um trabalho ótimo, porque podia ser feito a partir de casa, sem necessidade de ir à redação (eles enviavam as informações e eu escrevia).

Mas nem só de más notícias vivia este projeto. Se tudo corresse bem, eu poderia ter o privilégio de fazer um estágio profissional a partir de setembro. Teria apenas que lutar para, dentro da redação, ser o jornalista mais destacado. Que honra!

As condições laborais deixavam muito a desejar, mas estes senhores queriam os seus funcionários felizes. E, embora se diga o contrário, a realidade é que o dinheiro traz felicidade. Como ganharia, então, mais dinheiro? Acumulando o cargo de jornalista com o de angariador de publicidade. Andaria pela cidade, durante o dia, de porta em porta a perguntar aos donos dos cafés, restaurantes, lojas e afins se queriam publicitar o seu negócio nas páginas do "Notícias do Mondego". Há noite escreveria notícias com rigor e isenção.

Posto isto, seria injusto tecer críticas duras a este novo projeto tão sólido. Deixo apenas um conselho: não leiam o "Notícias do Mondego" numa esplanada em dias de vento porque as páginas não são agrafadas.

P.S.: Um dos destaques do "Notícias do Mondego" é a existência das secções "Ladies", com assuntos claramente do interesse feminino como o tarot e receitas culinárias; e "Gentlemen" que trata assuntos do vinho, automóveis, futebol e, claro, mulheres descascadas.