domingo, 7 de junho de 2015

O Orelhudo Já Não É Orelhudo

Daniel Alexandre falou com a CMTV
Daniel Alexandre canta mal, mas no programa "Ídolos", da SIC, o que chamou a atenção da produção não foram os decibéis desafinados. Foi o tamanho das orelhas.

Depois de muita celeuma em torno deste caso, o rapaz decidiu fazer uma empreitada nas suas avantajadas orelhas. Chama-se otoplastia e, segundo o Correio da Manhã (CM), esta cirurgia é cada vez mais frequente em Portugal.

Aquilo que este rapaz fez foi dizer aos telespectadores da SIC que, a partir de agora, já não podem gozar mais com ele, mas podem continuar a referir-se de forma jocosa a pessoas que tenham os apêndices da cabeça parecidos aos do Dumbo.

Esta é uma novela muito bonita que tem sido transmitida nos noticiários do CM e que, à boa maneira portuguesa, tem sido seguida com muita ternura porque, como boas pessoas que todos somos, sentir pena de alguém é um ato nobre.
Quanto ao Daniel: moço, inscreve-te no conservatório; aprende a cantar; volta a participar no "Ídolos" e não voltarás a ser humilhado.

P.S.: Embora a CMTV apenas tenha aflorado, deixo claro, pelo relevante interesse jornalístico (apenas jornalístico!), que a operação do Daniel foi realizada na clínica "Génese do Tempo".

sábado, 6 de junho de 2015

Um Novo Conjunto De Folhas Sem Agrafos

Desde o dia 4 de junho que "Coimbra tem ainda mais encanto". É este o slogan do novo conjunto de folhas sem agrafos que passará a estar disponível em diversos estabelecimentos comerciais da cidade. Se o slogan é revelador de uma falta de originalidade medonha, o que dizer do título: "Notícias do Mondego". E nem vou falar do design que colhe o mau gosto do roxo dado ao fundo do cabeçalho com letras de diferentes fontes, tamanhos e cores. Não fosse eu saber do que se tratava e acharia que estava na presença de um folhetim de uma qualquer seita ávida de fiéis.

Venho aqui falar desta nova publicação porque estava ansioso por encontra-la num café para poder contar como foi o meu encontro imediato com o "Notícias do Mondego". Sim, já estava à espera deste dia, mas confesso que achei que não iria chegar.
Primeira página da primeira edição do "jornal" Notícias do Mondego
Há uns tempos, uma amiga enviou-me um anúncio publicado no OLX que dava conta da necessidade de jornalistas para um novo projeto que ia nascer. Interessei-me por saber do que se tratava e se podia ser uma oportunidade de trabalho viável para mim. Enviei o meu currículo.

No dia seguinte fui contactado por telefone e foi-me perguntado se estaria disponível para uma entrevista presencial. Disse que sim.

Dois dias depois fui até ao centro comercial Avenida, na Sá da Bandeira, encontrar-me com os responsáveis por este novo projeto "jornalístico" da cidade.

Entrei numa sala desarrumada que estava a ser preparada para se transformar em redação. Foi-me apresentado um protótipo daquilo que seria esta nova publicação tal e qual como é hoje, incluindo as secções.

Logo de seguida foram-me apresentadas as condições: seria jornalista em regime de freelancer e não me podiam adiantar o valor pago por peça. Dependeria das receitas obtidas em publicidade. Mas era um trabalho ótimo, porque podia ser feito a partir de casa, sem necessidade de ir à redação (eles enviavam as informações e eu escrevia).

Mas nem só de más notícias vivia este projeto. Se tudo corresse bem, eu poderia ter o privilégio de fazer um estágio profissional a partir de setembro. Teria apenas que lutar para, dentro da redação, ser o jornalista mais destacado. Que honra!

As condições laborais deixavam muito a desejar, mas estes senhores queriam os seus funcionários felizes. E, embora se diga o contrário, a realidade é que o dinheiro traz felicidade. Como ganharia, então, mais dinheiro? Acumulando o cargo de jornalista com o de angariador de publicidade. Andaria pela cidade, durante o dia, de porta em porta a perguntar aos donos dos cafés, restaurantes, lojas e afins se queriam publicitar o seu negócio nas páginas do "Notícias do Mondego". Há noite escreveria notícias com rigor e isenção.

Posto isto, seria injusto tecer críticas duras a este novo projeto tão sólido. Deixo apenas um conselho: não leiam o "Notícias do Mondego" numa esplanada em dias de vento porque as páginas não são agrafadas.

P.S.: Um dos destaques do "Notícias do Mondego" é a existência das secções "Ladies", com assuntos claramente do interesse feminino como o tarot e receitas culinárias; e "Gentlemen" que trata assuntos do vinho, automóveis, futebol e, claro, mulheres descascadas.

terça-feira, 2 de junho de 2015

O PSD De Oliveira Do Hospital É Inclusivo Q.B.

No passado domingo, um avião comercial andou pelos ares do Montijo a baixa altitude. Nada de grave. A companhia responsável pelo aparelho apressou-se a dizer que se tratava de um trabalho de formação de pilotos, sendo corroborada pela força aérea. Não houve, portanto, quaisquer problemas e todas as normas de segurança estavam a ser cumpridas, no entanto aquele gigante dos ares a rasar as chaminés assustou alguns populares.

Entrevistado pela reportagem da SIC um popular, quando viu o aparelho, disse o seguinte: "Deus queira que o avião não caia aqui e vá cair para o mar." Vão lá morrer longe, quis ele dizer.

Se pensarmos de forma racional é, de facto, preferível que um avião caia longe do centro da cidade para que o número de vítimas seja o mais reduzido possível - como acontece no filme Crashpoint - 90 Minuten bis zum Absturz. Mas este exemplo, algo caricato, não deixa de ser paradigmático da leviandade de algumas opiniões e, acima de tudo, daquilo que é o nosso umbiguismo.

Todo este exemplo serve para fazer paralelismo com um caso que me deixou perplexo: o PSD de Oliveira do Hospital (PSD\OH) não quer que os refugiados sírios que Portugal vai receber cheguem àquele município porque o dinheiro gasto com estas pessoas deve ser canalizado para melhorar a vida dos munícipes que passam dificuldades.

Como o senhor que a SIC entrevistou, também o PSD\OH quer que o avião vá cair no mar para que nós, que estamos aqui em baixo, não levemos com ele em cima.

Estes senhores acreditam que "esses refugiados" vão "viver à custa da nossa debilitada segurança social ou em atividades obscuras e sem controlo". Acrescentam ainda que o dinheiro despendido na ajuda a estes seres humanos deveria ser aplicado em "incentivos à natalidade". 

Estes apoios são o melhor incentivo à natalidade que pode haver, ou será que os senhores do PSD\OH não sabem que há mais de 1 milhão de crianças que tiveram que fugir à guerra na Síria?

O mesmo PSD que criou os vistos dourados, tem percorrido o mundo à procura de investidores internacionais, puxou os reformados ricos de outros países para cá e até vendeu metade do país a estrangeiros estará a tornar-se num país altamente conservador e nacionalista? Será que vamos ver Passos Coelho ao lado de Marine Le Pen ou de Nigel Farage a defender o controlo das fronteiras com punho de ferro?

O partido que se orgulha de ter combatido o regime fascista devia ter uma postura mais solidária para com aqueles que não têm liberdade nos países onde nasceram. Aqui podemos ter pouco emprego e salários baixos, mas temos liberdade e paz. O que se tem passado na Síria e no Iraque é um atentado aos nossos valores mais remotos, por isso temos a obrigação de abrir os braços a quem para cá quiser vir. Quanto aos que vivem à custa da nossa debilitada segurança social injustamente devem ser punidos. Quer sejam sírios ou portugueses.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Quanto Vale O Futebol

A notícia das detenções na FIFA talvez não nos tenha surpreendido. Ou, se nos surpreendeu, foi pelo tempo que demorou a surgir. A verdade é que o mundo do futebol é muito mais do que a paixão que sentimos pelos nossos clubes ou pela seleção nacional. No entanto, indiretamente, também contribuímos para que o nojo que o futebol é hoje não seja limpo.

Caso contrário o Futebol Clube do Porto já não teria adeptos. É mais do que claro que a corrupção existiu no famoso processo "apito dourado" e, mesmo assim, continuamos a tolerar que as nossas equipas compitam na mesma liga que este clube do norte e, muitas vezes, até olhamos para ele com o respeito que um clube tão medalhado mereceria - caso os títulos tivessem sido ganhos com mérito.

Também nunca nos insurgimos contra as obras colossais que foram levadas a cabo no Brasil para a realização do último campeonato do mundo. Sabemos que aquele é um dos países mais desiguais do mundo, mesmo assim quando joga a seleção, deixamos as convicções de lado.

O futebol é um fenómeno que angaria para o seu núcleo intelectuais de todos os quadrantes que os fazem perder a racionalidade. Na semana passada, no Eixo do Mal da SIC Notícias, Pedro Marques Lopes, Portista ferrenho, tentou justificar a agressão do polícia de Guimarães a um adepto do Benfica desarmado. Apenas por ser benfiquista, concluo eu.

A importância que o futebol tem na sociedade é tão grande que deixámos de criticar atos de corrupção ou despesismo associados a este ópio do povo. Os clubes têm dividas astronómicas que, para além de não serem criticadas, ainda são aceites e quase que alimentadas com as quotas que cada sócio paga uma vez por mês.

É também curioso que Luís Figo surja no meio desta história como o grande homem que saiu do barco porque sabia que ele ia afundar-se. Basta pesquisar o binómio "Figo Sócrates" no Google que percebe-se de imediato que o histórico futebolista não é santo nenhum.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Comboio Tem Que Avançar

Quando fui morar para Coimbra, fruto do meu ingresso na universidade, passei a usar os taxis com mais frequência. Era normal esperar mais de 45 minutos por um autocarro cuja viajem durava mais de 20 minutos e ainda ficava a 5 minutos a pé do meu destino. Mesmo sendo Coimbra uma cidade à qual os estudantes regressavam todos os domingos, os SMTUC não conseguiam dar resposta às necessidades e a viagem era feita com o meu nariz a roçar o sovaco de outros estudantes e com os meus pés a servirem de base às rodas do trólei carregado de roupa limpa e caixas de comida para mais uma semana de aulas.

Hoje deve ser igual. Eu já não vou tantas vezes à terra e, quando vou, tento fintar os domingos e os taxis que aumentaram as tarifas para valores que me fazem esquece-los como alternativa na maior parte das vezes que tenho de me deslocar. Mas como Coimbra não tem autocarros à noite ou de madrugada, há vezes que o taxi é a única alternativa. Ou uma chamada para um amigo com carro.

Vejo-me agora surpreendido (talvez espantado, ou admirado) com a ideia que a FPT e a ANTRAL tiveram de taxar os taxis que saem dos aeroportos portugueses em 20 euros. 20 euros são quatro contos, que diabo! Parece que a ideia não foi bem acolhida pelo governo, mas ela só pode ser uma ideia a ter em conta porque o mercado dos transportes públicos individuais é um grande monopólio. Será por isso que dizem que os taxistas são todos salazaristas?!

As associações de taxistas não descansaram enquanto não liquidaram a Uber, uma empresa que assenta num conceito de partilha. Um conceito bem à moda destes novos tempos de smartphones, aplicações, redes sociais e outros que tais. Mas a Uber só pode desaparecer porque um tribunal português assim o deliberou. Na dúvida, em vez de se encontrarem as irregularidades e de se criar legislação para as resolver, optou-se por manter o negócio do transporte público individual em regime de monopólio em vez de se abrir o mercado ao progresso e inovação. 

Sites como a Uber, Blá Blá Car ou Airbnb são a prova de que estarmos sempre ligados, muda a forma como interagimso mesmo ao nível dos serviços que utilizamos. O comboio está em marcha e para-lo, agora, não pode ser bom. Deixa-lo avançar pode conferir a Portugal um lugar na vanguarda dos negócios de partilha.

domingo, 24 de maio de 2015

O Referendo E A Responsabilidade

Parlamento Irlandês, Dublin | ©Cláudia Paiva 2015
Os Irlandeses foram chamados a pronunciar-se sobre o casamento homossexual e disseram sim. Ainda bem.

O método utilizado para se saber se o casamento entre pessoas do mesmo sexo passaria a ser legal ou não foi o referendo. Os eleitores - os mesmos que escolhem os governantes do país - foram chamados a colocar uma cruz num boletim de voto consoante a sua opinião pessoal. 

Há países que levam esta forma de legislar muito a sério. A Suíça, por exemplo, usa e abusa das opiniões populares. É uma forma de desresponsabilização dos políticos que, desta forma, colocam o ónus do lado dos eleitores.

Ora, se os políticos são eleitos, para bem da saúde democrática, devem se-lo com base em programas políticos detalhados e devidamente escrutinados. Depois disso, devem ser responsabilizados pelos seus atos comparados com as propostas eleitorais.

Não tendo particular afeto por uma forma de legislar direta como são os referendos, compreendo a sua utilização em alguns momentos. Não concordo, mas compreendo. A questão escocesa e catalã são ótimos exemplos. Uma vez que são decisões que afetam diretamente os cidadãos, percebo que eles sejam auscultados.

Portugal é um exemplo de má utilização do referendo. Perguntaram-nos se, mesmo não estando a pensar engravidar, aceitaríamos o aborto, mas não nos perguntaram se queríamos ser cidadãos europeus, com todas as consequências que daí advieram.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Como Nasceu A Imprensa? ▷

em Porto, Portugal
© Cláudia Paiva, 2015 - Museu Nacional da Imprensa, Porto
"Aquele ali em cima é Gutenberg. O inventor da imprensa", conta Silvino Nicolau às cerca de dez crianças que o rodeiam sentadas em puffs coloridos. É o aniversário da Margarida e os pais quiseram que a festa fosse feita perto de punções, matrizes, moldes, componedores, galés, galeões, ramas, e outros tantos metais fundidos.

Não vai ser possível decorar os nomes de todos os componentes e muito menos ficar com a percepção da importância que a imprensa teve para a evolução do conhecimento. Mas vai ser possível sujar as mãos de tinta preta.

O Museu Nacional da Imprensa quer que os visitantes se sintam verdadeiros linotipistas, alinhem os linótipos, imprimam e fiquem com a recordação do dia passado no museu: um impresso à moda antiga.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O Jornalista Ocidental

© Ilustração de Faber, Luxemburgo
Mal ele entra, a sala ilumina-se. Usa calças de caqui com muitos bolsos, cheios de biscoitos que distribui generosamente entre os miúdos de tez escura, quando sai numa das suas missões. (...) Que o torna tão especial? Não é apenas o passaporte e o facto de ter nascido no lugar certo. (...) O jornalista ocidental é o portador da luz da verdade que ilumina as trevas que não compreendemos. (...)

(...) As reportagens só adquirem sentido se forem narradas segundo o prisma da complexa personalidade do jornalista ocidental. (...)

(...) Tem estilo, sem ser um concorrente sexual ameaçador. É bonito sem ser giro e bem informado sem ser pretensioso. (...) passeia-se com o ar de quem sabe o que quer. (...)

(...) Porque és tão espetacular? Que devemos fazer para ficarmos parecidos contigo? (...)

(...) Longe vão os tempos em que a missão do jornalista ocidental era relatar factos e acontecimentos: hoje, ele ou ela têm de ser a encarnação da vocação humanitária que caracteriza a cultura ocidental contemporânea. Nós, os outros, ainda estamos longe disso.(...)

Ironia do cronista iraquiano-libanês, Karl Sharro, publicada no blogue Karl Remarks. Traduzida para a revista Courrier Internacional (nº231\maio2015) por Fernanda Barão.
Karl Remarks é o blogue em língua inglesa mais lido no médio oriente. O autor do blogue (e deste texto) vive em Londres.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Dublin In Seconds ▷

em Dublin, Irlanda
© Diogo Pereira, 2015 - Trinity College, Dublin
A Europa está cada vez mais acessível graças a uma companhia aérea que partilha bandeira com a capital da Irlanda. A Ryanair voa para centenas de cidades e Portugal é um dos países com mais destinos disponíveis. Um deles é a cidade de Dublin. Voa-se a partir de 20 euros. E vale a pena.

Os cerca de 525 mil habitantes colocam-na ao lado de Lisboa em termos de dimensões. Já no que diz respeito ao clima, não há comparação. No dia de partida, no final de fevereiro de 2015, a diferença entre Lisboa e Dublin era de 9ºc.

Os destaques desta cidade passam pelos museus que já foram fábricas de cerveja e whisky, a biblioteca do Trinity College, os jardins, os bares com música ao vivo e muito mais.

Descobrirmos Dublin em 52 segundos.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

"Pimenta No Cu Dos Outros É Refresco"

É José Luís Peixoto quem empresta o título a este texto. A crónica, na Visão, mostra a perplexidade, ou talvez raiva. Quem sabe resignação. Não sei. É confuso falar dos outros, quando nos incluímos no seio desses mesmos outros. Mas não gostamos de fazer parte da equipa. Queremos sair dela. Não podemos. Somos iguais.

"Como se sentirão os prejudicados pelos bancos perante esse silêncio coletivo, esse abandono? E já que estamos em maré de perguntas: o que fariam esses mesmos indivíduos se não fossem eles os prejudicados?" pergunta José Luís Peixoto ao olhar para o rosto de alguns prejudicados pelos bancos em protesto mostrado pela televisão.

Vem-me à ideia o valor do humano. Quanto vale uma pessoa? Se nos animais essa avaliação é feita pela raça, o pedigree, a qualidade dos pastos ou a virilidade; nos seres humanos o local de nascimento é muito mais influente. O quilo de humano é muito mais caro no hemisfério sul e os ocidentais são os que batem valores record. E um oriental? É ao preço de uma gamba numa esplanada de Antananarivo.

Quanto vale cada um dos 800 que foram engolidos pelo mediterrâneo? E quanto vale cada um dos 12 que morreram em Paris? 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Santa Que Não É Santa ▷

em Aveiro, Portugal
Museu de Aveiro, ©Diogo Pereira, 2015
O Museu de Aveiro é muito mais conhecido pelo nome da sua mais famosa inquilina. Santa Joana. Esta infanta, carismática e enigmática viveu por ali os seus últimos tempos, em clausura. Porque aquele lugar, antes de ser museu, foi um convento. O Convento de Jesus.

Joana consegue ainda outra proeza curiosa. É padroeira da cidade de Aveiro, mesmo sem ser reconhecida pela Igreja Católica como santa. Beata é o seu único título, concedido pelo Papa Inocêncio XII EM 1673. Mas o povo continua a acarinha-la e a atribuir-lhe alguns milagres.

No acervo deste espaço concentram-se, essencialmente, as obras herdadas do convento que por ali existiu, sendo o túmulo de Joana a atração mais relevante. Embora seja hoje um museu, está frequentemente aberto para o culto religioso.

sábado, 18 de abril de 2015

Quem Manda Mais?

© TSGT ANNA HAYMAN, USAF, Wikipédia


O governo de Passos Coelho foi eleito com a privatização da TAP no programa de governo do seu partido. Este assunto é, aliás, muito caro aos partidos com maior representação parlamentar porque por diversos momentos já quiseram a privatização da companhia. Conclusão: se os partidos que apoiam a venda a privados da transportadora aérea nacional têm relevância suficiente na Assembleia da República estão, por isso, legitimados para levarem o processo adiante.

A legitimidade de efetuar a privatização não esgota a discussão. É óbvio que quem não votou nos partidos que a defendem ou quem, tendo votado nos partidos que a defendem, não concordam com ela, tem o dever de mover os esforços possíveis para fazer valer a sua opinião. É o caso do movimento "Não TAP os olhos".

Vendo legitimidade em qualquer cidadão português em não querer a venda da TAP, não reconheço qualquer direito superior aos trabalhadores da empresa. A questão da opinião individual não está em causa, o que está em causa é a utilização de recursos laborais para fazer contra poder ao poder democraticamente eleito.

O que está a acontecer com a recém criada greve dos pilotos da TAP é uma claríssima estratégia política para travar um processo legítimo. Como refere João Garcia na sua crónica no Expresso, não se compreende como é que os trabalhadores desta empresa não gostam do seu atual patrão, mas estão a fazer de tudo para continuarem com ele.

Os sindicatos servem para apoiar os trabalhadores na sua luta laboral. Embora o Partido Comunista queira, os sindicatos não servem para encostar o estado à parede. Ser prejudicado por uma greve dos trabalhadores da TAP que contesta a privatização da companhia quando ela foi sufragada, é a mesma coisa que um conjunto de cidadãos decidam conduzir um comboio em dia de greve. Pro bono.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Estará O Público A Gestar Um Irmão Brasileiro?

Logotipo do Público com as cores brasileiras usado como foto de perfil do Facebook "Público Brasil"
O Brasil é a sétima economia mundial. Falamos a mesma língua. Temos Know how

Os 3 factos aqui elencados podem ser o ponto de partida para o jornal Público fazer o mesmo trajeto que Pedro Vaz de Caminha fez em 1500. Mas se pensarmos que o navegador português não fez o caminho sozinho, podemos até pensar que, embora por cabotagem, a navegação já começou.

5 de março de 2014. Adriana Calcanhotto toma a cadeira de Bárbara Reis e assume a direção do jornal por um dia. A artista brasileira delineia o conteúdo do jornal que tradicionalmente tem um diretor diferente no seu aniversário e torna-se embaixadora do Brasil em Portugal. O facto de ser brasileira podia ser apenas um pormenor, mas não. Adriana Calcanhotto diz querer quebrar os clichés e "complicar o Brasil" no Público.

A edição comandada pela brasileira inaugura um ciclo do jornal português. A esse ciclo é dado o nome de "Ano Grande do Brasil". Logo a seguir são enviados 7 jornalistas para descobrirem o Brasil. Caminharem pelo seu interior e contarem estórias com sotaque. Chamam-lhe "Brasil na Estrada" e quase diariamente o mapa carioca vai ganhando novas entradas com recursos multimédia.

2014 foi o ano ideal para o Público descobrir o Brasil. Os campeonatos desportivos, as eleições brasileiras, os protestos anti corrupção e a preparação para os Jogos Olímpicos de 2016. Não faltaram temas. 

Ainda dentro do "Ano Grande do Brasil" o jornal português decidiu começar a fazer a ponte entre os dois países iniciando uma iniciativa que teve a primeira edição em 2014, mas, já se sabe, vai repetir-se em 2015. "Vinhos de Portugal no Rio" casou o Público com O Globo e foi exaltar o elixir português.

O laço da literatura também foi apertado, mas desta vez noutra cidade. Um pouco mais a sul. São Paulo. "Minha Língua, Minha Pátria" junta o Público a uma livraria paulista sediada num dos centros comerciais "mais chiques da cidade" e convida especialistas e autores dos dois lados do Atlântico.

Antes ainda da literatura o jornal de Belmiro de Azevedo anunciava a entrada num dos sites de notícias mais visitados do Brasil: UOL.br. Dizia a parangona que o jornal português passaria a estar disponível para um "universo de 50 milhões de leitores". Para marcar a presença foi lançada, em 26 de março de 2015, a página de Facebook "Público Brasil" que veste verde e amarelo.

São muitas mais as evidências da forte presença do Público no Brasil. As reportagens especiais, os dossiers interativos como "O Brasil é" e até a existência de Simone Duarte, diretora adjunta que é brasileira e conhece bem a realidade do país e do mundo, incluindo o universo lusófono, fruto da sua experiência profissional como jornalista e alta funcionária da ONU.

Embora o meio jornalístico esteja pelas ruas da amargura, talvez não tarde uma informação sobre o futuro do Público no Brasil. Quem sabe uma edição impressa mais exótica na palavra, seguindo o exemplo do El País que em novembro de 2013 lançou uma edição em português.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Jornalismo Sem Sensacionalismo

1 hora e 35 minutos de Ana Leal, TVI, 13.4.15
As urgências hospitalares têm estado nas manchetes dos jornais por causa de uma alegada sobre lotação dos espaços de internamento e dos elevados tempos de espera de atendimento depois da triagem. Os cortes orçamentais de que estamos fartos de ouvir falar são o motivo para o caos que foi hoje retratado pela jornalista Ana Leal no programa de reportagem semanal Repórter TVI.

O tema da saúde é caro aos portugueses sendo utilizado como bandeira e arma de arremesso político pelos partidos da oposição. É também um tema propício ao entretenimento, no pior sentido do conceito. Porque o público gosta de sangue. Nada melhor do que ver um carro desfeito, uma mancha de sangue, um olhar sofrido, lágrimas no rosto, um grito desesperado, um corpo morto.

Ana Leal procurou concentrar-se naquilo que deve ser o papel do jornalismo sério. Contar uma estória com frontalidade, ouvir as queixas, procurar as justificações e mostrar. Tornar público o que deve ser público. E o que deve ser público não é o drama alheio, o sofrimento desesperado ou a inércia sem apoio. Não deve ser notícia um grito desesperado e sem raciocínio.

1 hora e 35 minutos mostra sem ofender. Mostra sem humilhar. Afinal, jornalismo com dignidade é jornalismo sem sensacionalismo. E assim é que deve ser.

sábado, 11 de abril de 2015

O Bom E O Mau É O Que Eles Quiserem

"A Oeste nada de novo" de Lewis Milestone (1930)
A Guerra parece ter deixado o imaginário e o diretório de pesadelos de muitos. Pelo menos até à intervenção russa na Ucrânia. No entanto é um dos melhores exemplos de como as decisões de um governo interferem na vida das populações.

Em tempos de crise estamos mais do que habituados a sentir aquilo que nos jornais se diz com palavras complexas e indicadores sociais e económicos confusos. Não sabemos ao certo o que quer dizer swap, papel comercial ou inflação. Estes conceitos têm em nós o mesmo efeito que os medicamentos. Não sabemos o contêm, mas sentimo-nos melhor quando os tomamos. Ao contrário dos medicamentos, estes conceitos têm em nós efeitos daníficos.

Tem sido também recorrente ouvir políticos e demais individualidades dizer que o país está a caminhar no sentido certo. Inclusivamente as instituições europeias dão-nos nota máxima. No entanto, aquilo que sentimos não é propriamente isso.

Em comparação com aquilo que os políticos dizem, e aquilo que verdadeiramente é a realidade, vi esta semana o filme "A Oeste nada de novo". Um filme de 1930. 

Lewis Milestone conta a história de Paul Baumer, um jovem que, aguilhoado pela necessidade de combater os adversários e pelo espírito nacionalista, decide ir para a frente de combate com os seus colegas de escola.

Cedo estes jovens perceberam que a guerra não era o que os demais afirmavam. Paul percebeu melhor que todos os outros porque teve que confrontar-se com a perda. A perda de quase todos os seus amigos de escola.

Lewis Mileston critica veementemente a prática usada para incentivar os jovens a partir para o combate e mostra que a guerra se faz porque as lideranças assim o determinam. Quem está no "front" combate o seu semelhante. Semelhante não só por também ser um ser humano, mas porque também pensa que a guerra é inútil para quem a combate.