quarta-feira, 1 de abril de 2015

O Regime Ajardinado

©Expresso
Os resultados das eleições na Madeira confirmam que embora o Jardim tenha perdido a sua mais esbelta flor, ainda há seres clorofilados que têm o seu lugar ao sol. É o caso de Miguel Albuquerque que poderá fazer a fotossíntese sem precisar que o CDS lhe dê o dióxido de carbono e a água necessários ao processo.

Comparada com o retângulo a Madeira é uma espécie rara. Lá a política faz-se a uma velocidade e a um tempo diferentes. Faz-se ao mesmo ritmo que se fazia em Portugal antes de 74. Há muito que as eleições regionais deixaram de ser notícia relevante. Os madeirenses iam a votos e no fim ganhava sempre o mesmo. Alberto João Jardim chegou mesmo a demitir-se e a recandidatar-se logo a seguir para ganhar com nova maioria absoluta. Chegados aqui, a única notícia de relevo chegada do arquipélago era mesmo a mudança de líder do partido. Tal e qual um regime totalitário.

Jardim esteve mais tempo no poder do que Salazar. Os madeirenses quiseram-no, talvez porque tivessem medo. Mas quiseram-no. A partir daqui tudo o que acontecer de bom ou mau na ilha será indissociável do estadista gaiteiro e dos que o elegeram.

Desde domingo o PSD teve uma maioria absoluta, deixou de a ter durante duas horas e depois recuperou-a. Vamos por partes. No domingo, quando o partido laranja ganhou mais uma eleição com maioria absoluta, os comunistas pediram uma recontagem de votos. A vitória exígua deixava dúvidas no ar ao PCP que, com apenas 5 votos revalidados na sua candidatura, poderia retirar a maioria absoluta ao PSD.

Ao final do dia de hoje confirmou-se. Os comunistas deram saltos de alegria. "Este é um dia histórico para a Madeira e para os madeirenses", afirmou Leonel Nunes depois de conhecidos os resultados. No entanto, a opinião dos comunistas alterou-se. Não será um dia histórico porque, afinal, houve um erro informático e o PSD recuperou a maioria absoluta.

Daniel Oliveira - que aprecio e por quem tenho estima intelectual - escreve hoje no Expresso sobre a "boçalidade" do regime liderado por Alberto João Jardim como se ele fosse o único mal daquela ilha. E não é. O grande mal da Madeira são os madeirenses porque sempre viveram encostados a um regime sem o criticarem ou o deporem. 

É frequente ouvir-se, não apenas na Madeira, mas também lá, que "ele roubou muito mas deixou obra feita" como se fosse uma espécie de desculpa para as anormalidades que se cometem na política. Na realidade os povos só são oprimidos até quererem ou até não aguentarem mais. E, sejamos honestos, os madeirenses tinham mais armas que os portugueses no Estado Novo para derrubarem um regime corrupto e opressor. Não o fizeram porque viviam bem com ele.

terça-feira, 31 de março de 2015

A Ditadura Perfeita

"O grande irmão está a observa-lo" 1984 de George Orwell
Winston Smith não vale nada. É mais um homem entre tantos que veste o fato de macaco azul e trabalha para o bem comum que é definido pelo partido. O partido sabe o que é melhor para todos. Winston tem uma missão: dar razão às medidas que o partido toma e pôr a história do seu lado. 

O dia deste homem é passado em frente à secretária onde retifica notícias de The Times para que fiquem condizentes com a postura e tomadas de posição do partido. O objetivo do Ministério da Verdade - onde Smith trabalha - é, precisamente, a mentira.

Winston, e todos os habitantes da Oceania, vivem vigiados pelos telecrãs que estão espalhados por todos os locais, quer sejam as casas dos elementos do partido, os locais de trabalho dentro dos ministérios e até o refeitório.

1984, publicado em 1949, retrata uma espécie de ditadura perfeita em que quem manda tem acesso a todos os passos de quem obedece, mantendo-os controlados. George Orwell imagina no seu popular romance, uma forma de contornar aquilo que eram os problemas de controlo das ditaduras da época em que se inspirou. Saber o que cada cidadão faz, como faz e porque faz, tentando ir até ao impossível: o que pensa.


Citizenfour (2014) de Laura Poitras
Laura Poitras procurou mostrar ao mundo aquilo que é, verdadeiramente, uma ditadura perfeita. Não muito distante daquela que parecia ser uma quimera de Orwell. Citizenfour acompanha Edward Snowden pelo mundo dos dados, da informação que é onde reside o poder. Sempre residiu, no entanto, nunca como hoje o acesso aos dados foi tão fácil e tão massivo.

Quando publicamos estados de alma nas redes sociais, quando entregamos a nossa correspondência eletrónica a uma empresa a quem não conhecemos intenções, quando utilizamos cartões eletrónicos para fazer pagamentos, quando utilizamos aplicações móveis onde mostramos a nossa localização, quando nos fidelizamos num supermercado e registamos nos cartões promocionais todas as nossas compras, quando fornecemos dados pessoais por tudo e por nada ou quando fazemos uma série de outras coisas, estamos a criar um perfil. O nosso próprio perfil de vida. Estamos a dizer quem somos, o que somos, do que gostamos, do que não gostamos e, em última análise, como pensamos.

Associadas a todos estes atos, as intenções deliberadas dos governos dos países onde vivemos são preocupantes. Snowden conta como a administração norte americana controla os seus cidadãos e, mais grave ainda, os cidadãos que não tutela, de outros países. A monitorização de emails ou até mesmo a gravação das chamadas que fazemos, sem conhecimento público, levam os Estados Unidos a possuírem informações que podem ser utilizadas para controlar melhor as pessoas no século XXI do que nos tempos que Orwell imaginou.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Isabelle Oliveira: A Aldrabona

©Expresso 21.2.15 e Visão 19.3.15
"Aos 38 anos, Isabelle Oliveira, professora e investigadora luso-francesa, acaba de tomar posse como vice-reitora da Universidade de Sorbone, em Paris".

Começa assim o artigo do semanário Expresso, na página 23 do primeiro caderno do dia 21 de fevereiro. Orgulho nacional? Não. A Isabellinha (com dois L´s) não passa de uma aldrabona.

O artigo do jornal vem ilustrado com uma fotografia da intrujona com ar firme e inabalável e a ponte 25 de abril em fundo. Isabelle caminha em direção ao sucesso.

Na edição de hoje da Visão (1150) esta mulher que sempre presou "ser Oliveira e não Olivier" - tem orgulho em ser lusa - perdeu a sua fraca cabeleira pintada de ruivo com os cabelos brancos a espreitar e descobriu-se-lhe a careca.

Isabelle Oliveira não é vice-reitora e nem sequer tem ligações à Sorbone. É, isso sim, diretora de um departamento de outra universidade: Sorbone Nouvelle Paris 3. Cerca de 800 anos mais nova que a mítica universidade francesa.

Se esta senhora não é vice-reitora, como foi o Expresso e outros jornais, capazes de noticiar este feito? Fica a pergunta.

terça-feira, 17 de março de 2015

O Prisioneiro 43

© El Mundo, 15.3.15
O jornalista espanhol Javier Espinosa utiliza 5 páginas do suplemento semanal Crónica do jornal El Mundo (9214) para relatar o que viveu durante os 194 dias que forçosamente se entregou aos radicais do Estado Islâmico (vou abster-me de preceder o nome Estado Islâmico de autodenominado).

Nas páginas, carregadas de sensações fortes, Javier Espinosa conta como foi ser capturado juntamente com o seu reporter fotográfico, Ricardo García Vilanova e como foi conviver com James Foley e John Cantlie nos seus últimos dias de vida.

A história que hoje se apresenta deveria ter sido relatada há mais de um ano, altura em que os jornalistas foram libertados. Não o fizeram. Ameaçaram matar os reféns que ficaram em cativeiro, declara Casimiro García-Abadillo, diretor do El Mundo e confirma Espinosa na sua crónica.

"O fio da espada roçava-me a jugular. Os Beatles – era esse o nome que usávamos para nos referirmos aos três militantes – sempre gostaram de testar-nos. Sentaram-me no chão. Descalço. Com a cabeça rapada. Uma barba imensa e um uniforme laranja que celebrizou, tristemente, a prisão norte-americana de Guantánamo. John tentou aumentar o dramatismo. Acariciava-me o pescoço com o aço sem deixar de falar." 

É desta forma que o jornalista começa a contar a terrível situação porque passou acrescentando que, depois disto, foi-lhe apontada uma arma à cabeça e o gatilho foi premido. Três vezes. Apercebeu-se de que não estava morto quando ainda respirava. "Chama-se falsa execução", esclarece. Embora tenha visto o carrasco carregar a Glock, ela estava bloqueada. Mas Espinosa não sabia.

Espinosa vestia um uniforme laranja. Tinha o número 43 e era uma réplica do fardamento dos prisioneiros de Guantanamo. 

Não havia espaço a perdões ou arrependimentos. Embora James Foley e John Cantlie tenham afirmado ser  de origem Paquistanesa, acabaram mortos sem piedade por verdadeiros ocidentais sem escrúpulos.
© El Mundo, 15.3.15
"Sentes? Está frio, não está? Imaginas a dor que sentirás se eu tu cravar? O primeiro golpe cortar-te-ia as veias. O sange misturar-se-ia com a saliva..."

Esta é a frase destacada por El Mundo para anunciar a crónica de Espinosa. A publicidade perfeita. Parece até um daqueles casos em que os jornais dão a primeira página aos anunciantes. 

Neste caso o anunciante chama-se Estado Islâmico. Não paga pelo anúncio. Não quer vender nada. Quer, apenas, ter reconhecimento pelos atos que leva a cabo.

Assim como a morte de James Foley e John Cantlie serviram uma audaz campanha publicitária, também a libertação deste jornalista serve o mesmo propósito. É bom matar. Impressiona. Mas também é bom libertar. Comove.

A situação que se vive naquelas zonas do Iraque e da Síria é mais do que uma guerra de armar protagonizada por terroristas. É a utilização dos meios de massa como nunca foi possível até aqui. Os média, neste momento, são apenas a arma do crime porque não podem controlar o que circula e contornar simplesmente o que se passa não é opção.

O jornal espanhol El Mundo fez uma transposição da crónica de Espinosa para o seu site com elementos novos como vídeos e infografias. Pode ser acedido aqui!

sexta-feira, 13 de março de 2015

Mujica: "Viver É Superar As Coisas Que Ficam Para Trás E Ter Outras Para A Frente"

© Expresso
Na última edição do semanário Expresso (2210) o jornalista Márcio Resende teve a oportunidade de entrevistar um dos chefes de estado mais carismáticos do mundo. E não foi fácil. De entre as milhares de solicitações, José Alberto Mujica Cordano escolheu pessoalmente o semanário luso para aprofundar relações entre o Uruguai e Portugal. 

É na sua chácara, distante do centro de Montevideu que sempre morou e continua a morar. Retirando, claro está, os quase quinze anos que esteve preso aos braços da ditadura militar. Vive em 45 metros quadrados debaixo de um teto de zinco. Recusou a residência oficial e recusou também as formalidades. Quando o jornalista chega à casa de Mujica encontra um polícia, sem farda, que o cumprimenta.

Este homem, de 80 anos, foi o responsável por colocar o Uruguai no mapa mundial. É, inclusivamente, mais popular no resto do mundo do que no seu próprio país. "Ninguém é profeta na sua própria terra", ironiza.

Quanto a inovação está em quase todos os tops possíveis. Foi o segundo país da América Latina a legalizar o aborto e a permitir o casamento homossexual e tornou-se no primeiro estado no mundo a regular a produção, distribuição e venda de marijuana. Ajudou no reatar das relações entre Cuba e EUA, recebeu presos de Guantanamo e doa 87% do seu salário.

Não serão apenas virtudes. Não há homens perfeitos. Mas Mujica tem valores vincados que segue à risca. Da entrevista ficam as palavras mais inspiradoras:


"Viver é superar coisas que ficam para trás e ter outras à frente."
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"Do ponto de vista da temperatura social, os seres humanos tendem sempre a considerar que houve um passado melhor. Porque quando pensamos assim, lembramo-nos da nossa juventude. Naturalmente, não há passado mais lindo do que a juventude."
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"Nenhum vício é bom, a não ser o do amor."
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O jornalista pergunta o que sentiu quando um jornalista fumou à sua frente durante uma entrevista:
"Senti pena. Porque ele fez isso como um processo libertador. Mas que libertador?! É a construção de uma escravidão!"
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"Creio que se aprende muito mais da dor do que da bonança. A bonança envaidece, idiotiza, torna tudo fútil."
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"Alguns como eu pensam que é possível a construção de um mundo melhor. Mas é possível que esse mundo melhor seja a marcha constante. Não quer dizer que cheguemos a uma terra prometida. Quer dizer que damos conteúdo à vida de lutar por esse mundo melhor."
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"A Europa tem uma profunda dependência da batuta alemã. A Alemanha conseguiu na paz o que não conseguiu alcançar com duas guerras."
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"Outro erro foi a Ucrânia, foram longe demais no mapa. Estaria bem se tivessem deixado a Ucrânia em stand by. Mas cometeram o erro de pedir mais do que podiam dar."
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"O problema não é Putin. É a Rússia."
Entrevista disponível aqui!

quinta-feira, 12 de março de 2015

De Gaudi Para Gaudi ▷

em Barcelona, Espanha
Antoni Gaudi é a figura de Barcelona. É indissociável. São as casas, a catedral e o parque. 

Guell queria uma urbanização para pessoas de classe alta, longe do centro da já grande cidade. Ao que parece não houve muitos interessados em comprar as casas que quase não se construiram, com exceção de alguns exemplares. Os suficientes para tornarem este espaço num local de culto.

Estrategicamente localizado, a partir dele é possível perder a respiração ao olhar sobre a cidade catalã. É ainda incrível olhar desde o parque concebido por Gaudi para a catedral concebida por Gaudi e para a torre inspirada em Gaudi: a Torre Agbar. 


▷ Outros vídeos:

 

terça-feira, 10 de março de 2015

A Cidade Da Cerveja Ou A Cerveja Da Cidade? ▷

em Dublin, Irlanda

Dublin está intimamente ligada ao negócio da cerveja. Desde 1759 que dá o sustento a muitos irlandeses e, ainda hoje, se reflete na capacidade produtiva e de exportação do país.

A cerveja Guinness é um símbolo de Dublin. Até podemos inverter os papeis e dizer que Dublin é um símbolo da cerveja Guinness. Não é um exagero. Foi a cerveja que escolheu para si o símbolo da arpa e só depois Dublin o escolheu como seu também.

A melhor forma de conhecer a Guinness é, claro, provando-a. Desta forma conseguimos descreve-la muito pessoalmente, mas, como qualquer marca de sucesso, tem uma história para contar e, a oeste da cidade, o museu da Cerveja Guinness conta como se fez e como se faz esta bebida escura que tanto se pode beber como comer.



▷ Outros vídeos:

 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Encontros Em Torno Do Documentário

em Coimbra, Portugal
A convite da secção de jornalismo da Faculdade de Letras da UC, estive no passado dia 3 de março a apresentar o meu documentário na Casa das Caldeiras. PosDoc, Encontros em torno do documentário é o nome da iniciativa que continua nas próximas semanas.
Casa das Caldeiras, 3.3.15

Destaque no "Diário de Coimbra", dia 2.3.15

Cartazes e flyers promocionais do evento

domingo, 8 de março de 2015

Jornais Futebolísticos

   
Jornais O Jogo, Record e Abola de 8.3.15

Esta conversa já começa a tresandar a lugar comum. No entanto, como tenho um ódio de estimação ao jornalismo desportivo português, aqui vai.

Na realidade o problema começa precisamente pela definição do tipo de jornalismo que jornais como Record, A Bola e O Jogo fazem. Embora o estatuto editorial do Record diga, claramente, que é "especializado em desporto", não há dúvida para ninguém que o futebol é quem mais ordena.
Hoje, louvado seja A Bola, os periódicos que vendem mais de 70 mil exemplares por dia (de acordo com a Associação Portuguesa para o Controlo de tiragem e circulação - dados do 6º bimestre de 2014, somando O Jogo e Record) decidiram dar primazia ao desporto rei, o futebol, em detrimento da vitória de Nelson Évora nos europeus de atletismo.

Digo louvado seja A Bola porque deu o destaque merecedor a este acontecimento, no entanto não fica isento de críticas noutras circunstâncias e, mesmo nesta, não há informação de que tivesse em Praga um correspondente, só um, para cobrir um evento em que tantos portugueses participam e se destacam.

Também os generalistas ficam mal na fotografia quando, em eventos desportivos onde nada de relevante se consegue têm batalhões de jornalistas e, noutros, onde há verdadeiros feitos para o desporto nacional, escusam-se de marcar presença.

sábado, 7 de março de 2015

Michio Kaku

Na semana que passou o Expresso deu-me a conhecer Michio Kaku, um físico americano que é descrito pelo correspondente do semanário nos EUA como um "manipulador mental de equações das teorias da relatividade e da física quântica". Ele próprio, depois de confessar a admiração por Einstein admitiu estar a manipular equações enquanto respondia às perguntas do jornalista. Dá aulas no City College University of New York, escreve livros, assina programas de televisão e ainda dá conferências por todo o mundo - vai estar em Portugal no próximo dia 12 de Março.

O investigador de topo olha para o futuro da informação e crê num capitalismo perfeito com o acesso imediato às informações através de lentes de contacto que serão ecrãs. Desta forma as pessoas poderão ter acesso às informações de preços e, assim, não serem enganadas ou poderem optar pelos produtos mais baratos. No entanto Kaku não acredita num domínio total das tecnologias. Apesar de, por exemplo, acreditar que os média vão estar totalmente no digital, não despreza aquilo a que chama de "capital intelectual". Para isso compara dois países que diz conhecer bem: a Rússia e a China. O país de Putin, afirma, pode sofrer com a importância económica dada ao petróleo. Por outro lado, afirma que a China percebe que, para além de toda a indústria, as mentes são fundamentais. E, reitera, mentes não podem ser produzidas em massa. É preciso tempo. Tempo de formação em escolas e universidades.

domingo, 30 de novembro de 2014

Pelo Sim Pelo Não

Ricardo Salgado foi dono e senhor de Portugal. Era-o por ser homem forte de um dos maiores grupos económicos e de um dos mais antigos bancos e, sendo conhecido como dono disto tudo, tinha poderes que até à bem pouco tempo eram desconhecidos ou, pelo menos, discretos.

Falo neste cidadão porque para além da distinção de DDT (oficiosa) tinha ainda várias distinções pomposas de melhor banqueiro (oficial). Também o BES, banco que liderava, tinha as melhores classificações em Rankings nacionais e internacionais. Essas distinções vieram a revelar-se inúteis e, algumas delas, até fraudulentas.

Por via de dúvidas, os bancos - eles próprios - estão a precaver-se destas distinções. Como quem diz: "ganhámos o prémio, mas se isto der para o torto, não temos nada a ver com isso". É o caso do BIG que, consagrado pela 7ª vez "Melhor Banco" pela revista Exame, deixa claro que "Este prémio é da exclusiva responsabilidade da entidade que o atribuiu".

Jornal Expresso de 29-11-14

sábado, 4 de outubro de 2014

Publireportagem?

Hoje li o Diário As Beiras. Mais uma vez não gostei do que estava impresso naquelas páginas e decidi enviar um email ao diretor. Aqui fica:


Caro Diretor do Jornal Diário As Beiras Agostinho Franklin,


Envio esta mensagem para dar conhecimento do meu descontentamento por aquilo que considero ser um desrespeito total pelos leitores, pelo jornalismo de qualidade e, acima de tudo, pela liberdade de imprensa.

Não sou leitor assíduo do Jornal Diário As Beiras por considerar que o rigor exigido a um jornal local não é, nem de longe nem de perto, atingido pela vossa publicação.Esta minha conclusão assenta num sem-número de vezes que tive em minha posse o referido periódico - porque o encontro em estabelecimentos comerciais ou porque é distribuído com o Expresso (jornal que compro semanalmente) - e que fiquei baralhado com o que ia lendo. 

Não sabia se aquele conjunto de palavras era uma reportagem sobre o Licor Beirão ou se era um anúncio publicitário. Não sabia se aquelas fotos da inauguração da nova clínica da SanFil na "Coimbra Fotográfica" eram uma escolha editorial ou uma escolha comercial. Não sabia se aquele pequeno texto sobre o novo restaurante do Bar Rock Planet era uma inserção de um jornalista ou de um marqueteiro.

Tem-se falado no jornalismo de proximidade e na "clareira" que existe no jornalismo regional atual. Acredito que novos projetos sérios podem surgir para captar leitores e devolver ao jornalismo a condição de negócio rentável sem a qual não conseguirá libertar-se da meia dúzia de interesses instalados.

Acredito que a qualidade é o escape do jornalismo. Só a qualidade pode conferir importância e criar um verdadeiro quarto poder livre.

Os jornais são ainda - ao contrário do que muitos querem fazer querer - um elemento fundamental na disseminação de informação. Se, por um lado, os jornais de informação nacional transportam as notícias importantes do país embora um pouco distantes da realidade de quem as lê, por outro lado, os jornais locais veiculam notícias que influenciam a vida dos seus leitores quase imediatamente.
É urgente dar ao jornalismo regional a verdadeira importância que ele tem. É urgente ser claro e voltar a erguer o muro que foi sendo construído e que agora parece estar a perder mais tijolos. É urgente erguer o muro que separa a redação do departamento comercial.

Não espero resposta, espero conseguir dirigir-me - daqui a algum tempo - a um quiosque e dizer: "era o Diário As Beiras se faz favor..."

Cordialmente,
Diogo Pereira

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Culpa É Do Jornalismo

Dediquei uma parte substancial do ano 2013 a trabalhar num documentário sobre o Futuro do Jornalismo. Coloquei questões a pessoas que, de alguma forma estão ligadas ao jornalismo, e tentei chegar à conclusão óbvia: como vai ser o jornalismo daqui a uns anos. Não consegui uma resposta clara. Há quem esteja otimista e há quem esteja pessimista, no entanto todos chegaram à conclusão de que o jornalismo vive uma das piores fases da sua história.

Depois de terminar e apresentar este trabalho continuei a pensar no assunto. "Quando for grande" quero ser jornalista e, logicamente, o tema interessa-me. Cheguei a algumas conclusões. A principal de todas é que a culpa da crise do jornalismo é do próprio jornalismo.

Ora vejamos, os jornalistas não são mais do que pés de microfone. O jornalismo não procura a notícia. A notícia é que procura o jornalismo. Falamos nas redes sociais e nas formas de como as entidades (sejam elas quais forem) conseguem chegar aos seus públicos através do facebook, twitter, sites poderosos e até mesmo canais de televisão. No entanto, o jornalismo não sofre pela existência destes meios mas por os replicar insistentemente.

Se Cavaco Silva escreve uma mensagem no seu mural de Facebook, todos os órgãos de comunicação social escrevem sobre o post presidencial. 

Se o Presidente do Porto, Benfica ou Sporting falam aos canais dos respetivos clubes, estas entrevistas são automaticamente transformadas em notícias de todos os órgãos de comunicação social. 

Se o Ricardo Araújo Pereira chama todos os jornalistas para estarem na TVI, mesmo sem dizer o objetivo da conferência de imprensa, lá estão todos os jornalistas prontos para esticar o microfone e fazer um artigo no dia seguinte.

Se o Paulo Portas decide fazer uma "conferência de imprensa" mesmo sem dar direito a que os jornalistas coloquem questões, lá estão as televisões todas a fazer diretos, muitas vezes sem sonharem com os conteúdos das mensagens proferidas.

O problema do jornalismo é grave. Muito grave mesmo. O jornalismo serve para perscrutar toda a informação. Para além disto, só uma entrevista feita por jornalistas "a sério" pode ter um objetivo claro de informar. Porque quando o Júlio Magalhães entrevista o Pinto da Costa no Porto Canal (sem sabermos bem se o está a fazer para o Porto Canal Generalista ou para o Porto Canal oficial do FCP) fica no ar a dúvida sobre o objetivo daquela entrevista que os órgãos de comunicação social vão imediatamente replicar.

Mas os males não vêm apenas de fora para dentro do jornalismo. O jornalismo é hábil na sua autodestruição. É nos principais blocos informativos das televisões generalistas que vemos os cancros a infetarem o sistema imunitário do já doente quarto poder. Marques Mendes é o mensageiro, ou melhor, o vidente e José Sócrates a voz da sua própria defesa e dos seus.

O jornalismo ainda tem poder. Só este facto justifica a necessidade constante de muitos quererem estar presentes em jornais, rádios ou televisões para além dos seus blogues ou páginas sociais. Mas com o avanço brutal do acesso à produção de informação, muito em breve o jornalismo estará trucidado.

Não sou um Profeta nem um fiel depositário da tão aguardada solução para o modelo de negócio do jornalismo do futuro mas creio que o jornalismo deve voltar a ser um verdadeiro poder. O poder da Liberdade. Deve controlar o que publica e apostar na qualidade. Prefiro pouco e bom. E a Democracia também preferirá.

domingo, 28 de setembro de 2014

Haja Solidariedade Na Europa


David Cameron tem andado a dormir mal. No início de 2013 encheu o peito de ar e tentou fingir que era um estadista querendo o melhor para os cidadãos que representa. Para isso prometeu fazer um referendo onde os britânicos pudessem decidir sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia.

Acontece que, talvez por motivos semelhantes, também uma grande parte dos cidadãos escoceses não queriam continuar no Reino de David.

Os escoceses independentes passariam a ter domínio sobre os seus próprios impostos, controlariam a exportação de petróleo do mar do norte e passariam a ser, segundo algumas estimativas, a 14ª potência mundial. Por outro lado, deixavam de pagar a grande dívida criada pelas outras nações irresponsáveis que compõem o Reino Unido. Só vantagens, afinal de contas ninguém tem que limpar a sujidade dos outros.

Olhando por este prisma, e tal como Salmond tem mais do que motivos para abandonar o Reino, Cameron tem motivos mais do que suficientes para querer que o Reino Unido saia da UE. A irresponsabilidade e ingovernabilidade de países como Portugal, Espanha ou Grécia não podem pôr em causa a grande potência, quiçá império, Britânica.

Ás voltas com estas questões do paga quem tem que pagar e recebe quem tem que receber andam também outras regiões de países que integram a União Europeia. São exemplo disso a Catalunha, em Espanha (que, por exemplo, exporta 26% do total de exportações espanholas) ou a Flandres, na Bélgica (que exporta 79% do total de mercadorias exportadas pela Bélgica).

Todos estes casos têm em comum a falta de solidariedade entre pessoas que têm mais em comum do que simplesmente o passaporte. Aquilo que está em causa não são questões relacionadas com direitos básicos mas simplesmente questões economicistas. Não interessa a cultura ou o bem comum. Interessa o próprio umbigo e o bem individual. Que sociedade é esta que, quando se vê confrontada com dificuldades, não é capaz de as partilhar para que seja menos mal para cada um?

P.S.: É importante salientar que, no caso do referendo na Escócia, a democracia mostrou o seu verdadeiro poder. Não ganhou o “não”. Ganhou a sociedade escocesa que não quis faltar a um momento de importância crucial para si próprios e para o resto do globo. Saíram todos à rua (84,5% dos eleitores foram votar). É a vontade de todos a definir as fronteiras que a vontade de meia dúzia definiu há uns séculos.

Texto originalmente publicado no site da Secção de Desfesa dos Direitos Humanos da Associação Académica de Coimbra.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Boa Notícia: Portugal Descobriu Como Acabar Com Regimes Ditatoriais

O nosso pequeno país, insignificante economicamente (não produz petróleo!), é, ficámos a saber recentemente, o pioneiro na luta contra regimes liderados por tiranos claramente agressores de todos os direitos humanos. Esta notícia foi-nos avançada pelo homem máximo da nação. Não, não foi Ricardo Salgado, foi Cavaco Silva que afirmou que a entrada da Guiné Equatorial na CPLP iria melhorar a débil situação dos seres humanos que por lá residem. Viva! Quando conseguirmos convencer a Coreia do Norte a entrar ganharemos um Nobel.


Como não estou tão confiante como Cavaco Silva, e uma vez que já pusemos a “pata na poça”, o melhor é esquecer que a Guiné Equatorial ocupa o 136º lugar no índice de desenvolvimento humano, tem 19% de crianças subnutridas, é o 163º país no índice de corrupção e que uma em cada oito crianças não chega a completar os cinco anos de idade porque morre com problemas de saúde e aproveitar a sua produção diária de mais de 500 mil barris de petróleo e os mais de 100 milhões de euros prontinhos a financiar o BANIF que tanto precisa.


A CPLP tem um potencial económico poderosíssimo. Estima-se que em 2020 passe a ser o 4º maior produtor de petróleo do mundo. Mais uma boa notícia. A União Europeia já pode bater o pé à opressora Rússia que tem aumentado o preço do gás natural e até fechado as torneiras ao velho continente.

A última boa notícia, e que nos deve deixar o peito cheio de ar, é que com o tipo de português que se fala na Guiné Equatorial a nossa língua é a segunda mais falada no mundo.